terça-feira, 13 de agosto de 2013

A CONSULTA MÉDICA




            Há muitos anos atrás, me encontrava muito doente, então uma amiga indicou o seu médico de confiança - médico é questão de confiança. O referido médico estava com a agenda “cheia” teria que esperar por uma consulta mais ou menos 60 dias ou antes se houvesse uma desistência ( a consulta era particular), marquei a consulta e fiquei aguardando, levei sorte depois de uns 30 dias a secretaria me ligou para avisar de uma desistência, fiquei aminada.
            Então levei uns dois dias escrevendo toda sorte “ais”; até que enfim chegou o dia da tão sonhada da consulta. Na hora marcada fui recebida pelo médico, pessoa amável, simpática e tantos outros adjetivos; educadamente indicou a cadeira para sentar e conversamos. Ele queria detalhes desde o meu nascimento até aquele dia: então nesse primeiro momento estava fazendo um relato histórico da minha existência.
            Assim terminado o relato histórico pensei agora ele vai perguntar sobre os meus “ais” e qual a minha surpresa quando me pergunta de uma forma muito incisiva “qual é o sentimento que predomina em você durante todo o dia”? Para minha surpresa eu não soube responder então  chamou a secretaria e pediu que remarcasse  a consulta para a semana seguinte e me passou uma tarefa: teria que registrar num caderno durante uma semana todos os sentimentos que se apresentassem – quer de alegria, tristeza, euforia, desamino, ódio, raiva etc.. Marcar ainda o dia e a hora e no final dia fazer um balanço -- qual predominava.
            De posse da tarefa voltei para casa frustrada, primeiro ele não quis saber dos meus “ais” só queria saber dos meus sentimentos e minha amiga nem me avisou detalhe.  Depois de uma semana voltei ao consultório com a lição de casa feita e novamente pensei ele vai querer saber dos meus tão preciosos “ais”, novamente fui surpreendida, se contentou com os meus sentimentos.
            Com efeito, falou serenamente que precisávamos harmonizar os sentimentos e receitou vários remédios homeopáticos, para encurtar a história me tratei com ele mais ou menos cinco anos,  nunca quis saber dos meus “ais”. Logo com o passar do tempo meus “ais” desapareceram, aprendi a me observar e até hoje faço um diário registrando tudo o que sinto, aprendi ainda que quando cozinhamos o ver, ouvir, cheirar, saborear, tocar interagem nos dando a oportunidade de perceber e agir e que às vezes na nossa existência precisamos do descontentamento, da dor, do cansaço para dar sabor à vida.





2 comentários:

  1. Que belo relato minha amiga! Quando penso no sentimento que mais sinto durante meus dias sem dúvida a espera é algo que me angustia bastante, especialmente por não saber o que esperar...
    Saudades

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    1. Lu,

      Também estou com muita saudade, aguardo sua vista.
      Quanto ao meu relato, esse médico me ensinou a ver que a nossa doença está intimamente ligada aos nossos sentimentos, e o fato de você por num papel o que sente elimina boa parte da ansiedade que acompanha sempre os sentimentos. Hoje compro uns cadernos próprios para anotações lindos, e escrevo tudo o que sinto. As minhas dores de cabeça que eram constantes desapareceram,claro que tomei homeopatia por muito tempo; contudo quando me sento pressionada, aflita,transfiro para o papel, assim a mente se alivia e o corpo não sente.Quanto a sua angustia por não saber o que esperar todos nós sofremos do mesmo mal, a nossa vida é um grande ponto de interrogação, em razão das nossas escolhas que geram ações e não sabemos onde as nossas ações vão dar.A ação é questão de estudo para muitos filósofos, Hannah Arendt foi no sec.XX uma grande estudiosa do assunto. Procure não ficar aflita com o futuro, viva somente o agora - presente - diga presente para o presente dê o seu melhor - no presente.

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